Pró-vida Anápolis

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Segunda, 13 Janeiro 2020 12:10

O perigo do ódio

(não se pode odiar o Papa em nome da fé ou da moral)

Guadalupe TilmaO Santo Padre, em sua homilia na Basílica de São Pedro na Festa de Nossa Senhora de Guadalupe, em 12/12/2019, qualificou Maria com três adjetivos: mãe, mulher e mestiça. Rejeitou, porém, o título de corredentora e considerou um disparate [“tontera” em espanhol] a pretensão de definir o dogma da Corredenção[1]. Em resposta, o ex-núncio apostólico nos Estados Unidos, Arcebispo Dom Carlo Maria Viganò, publicou em Corrispondenza Romana no dia 19/12/2019 um artigo que me causou inquietação[2]. Citando o profeta Isaías – “por muito tempo me calei, guardei silêncio, me contive; agora gritarei como uma parturiente” (Is 4,14) – o Arcebispo não poupou acusações ao Papa: Teria ele demonstrado uma “intolerância” a Nossa Senhora. Estaria cometendo heresias materiais e formais, idolatria, praticando dissimulações e mentiras, exaltando a si mesmo em uma “contínua autocelebração narcisística”. E o resultado de tudo seria “uma Igreja Católica que não é mais católica” (sic!). Dom Viganò convocou os católicos a lutarem sob o Coração Imaculado de Maria resistindo aos “membros alistados no exército do Inimigo”.

Ora, a consequência espontânea de quem lê as palavras acima – escritas, diga-se de passagem, por alguém que eu admiro – é a indignação contra o Papa. Não estaríamos próximos do “ódio ao Papa” pregado por Lutero?

Lutero queima buladetalheSe a Igreja Católica não é mais católica, não estaria na hora de trocar de Igreja? Ou de fundar uma outra, sem se importar com excomunhões ou cismas?[3] Lembro-me de Lutero em 1520 ao queimar publicamente a bula do Papa Leão X que o ameaçava de excomunhão...

Ou então não seria conveniente declarar inválida a eleição do atual Pontífice e fazer um novo conclave de cardeais para eleger outro Papa? Lembro-me que isso já foi feito em 1378, quando alguns cardeais declararam nula a eleição de Urbano VI e elegeram o antipapa Clemente VII, dando início ao dolorosíssimo Cisma do Ocidente, que só terminaria em 1417, com o Concílio de Constança.

Notei ainda que o texto de Dom Viganò não se limita a apontar erros do atual Pontificado (“estamos sendo envenenados por um falso magistério”), mas estende sua crítica às “últimas décadas”, nas quais a Moral teria sido “sabotada” e o Sacrifício Eucarístico teria sido “protestantizado e transformado em um banquete de convivas”. Tudo isso teria ocorrido após o Concílio Vaticano II (1962-1965), que teria aberto “não apenas a Caixa de Pandora, mas a Janela de Overton”.

Essa posição para mim é nova em Dom Viganò. Nunca imaginei que ele colocasse numa mesma trouxa o pontificado do Papa Francisco e tudo o que ocorreu após o último Concílio Ecumênico. Sem querer negar que após o Concílio houve uma grande crise religiosa, é preciso lembrar que São Paulo VI – de cuja santidade não duvido – defendeu em 1965 na encíclica “Mysterium fidei” a doutrina eucarística da transubstanciação (contra os que pretendiam apenas uma “transignificação” ou “transfinalização”), reafirmou em 1967 na encíclica “Sacerdotalis caelibatum” o valor do celibato sacerdotal, presenteou-nos em 1968 com a imortal encíclica “Humanae vitae” (sobre os significados unitivo e procriador do ato conjugal), reafirmou no mesmo ano a fé católica no seu célebre “Credo do Povo de Deus” e denunciou em 1972 que a “fumaça de Satanás”[4] havia entrado no Templo de Deus.

JoaoPauloIISão João Paulo II, em seu pontificado pós-conciliar, ofereceu-nos algo inédito na defesa dos princípios morais: a brilhante encíclica “Veritatis splendor” (1993), carta magna da Moral Católica. Além disso, usou de sua infalibilidade pontifícia na encíclica “Evangelium vitae” para condenar como desordem moral grave “o aborto direto, isto é, querido como fim ou como meio” (EV 62), assim como a eutanásia e o suicídio. E não esqueçamos a declaração “Dominus Iesus” (2000), na qual a Congregação para a Doutrina da Fé, sob o seu pontificado, esclareceu a expressão “subsiste em” [“subsistit in”], da Constituição “Lumen gentium”[5], para afirmar que há uma única Igreja fundada por Jesus Cristo[6].

Foi ainda após o Vaticano II que a mesma Congregação editou as instruções “Donum vitae” (1987) e “Dignitas personae” (2008) sobre importantíssimas questões atuais de Bioética.

Não podemos portanto – sem fazer violência à verdade – afirmar que a oferta da Sagrada Comunhão aos divorciados em segunda união, a facilitação extrema do processo de nulidade matrimonial e a exaltação da Mãe Terra com a estátua de Pachamama sejam uma simples consequência do que ensinou o Vaticano II e os papas São Paulo VI, São João Paulo II e Bento XVI.

Se o Papa Francisco e todo o Magistério das últimas décadas traíram o depósito da Fé e a Tradição da Igreja, que fazer? Será lícito, em nome de um suposto “estado de necessidade”, sagrar quatro bispos que defendam a Tradição, sem se importar com a excomunhão automática anexa a tal sagração? Lembro-me que Dom Lefebvre, pouco antes de fazer isso em 1988, disse que a excomunhão o deixaria “totalmente indiferente”.

Quem faz o cisma?

Diante do atual estado da Igreja, mais de uma vez alguém me indagou sobre o perigo de um cisma. Um cisma, porém, não é causado por um Papa nem por um Concílio. Paradoxalmente, na História da Igreja os cismas foram feitos por aqueles que desejavam corrigir os erros (reais ou supostos) de um Papa ou de um Concílio. Lutero, ao separar-se de Roma, afirmou estar reformando a Igreja, fazendo-a voltar ao “Evangelho” da qual se afastara. Os veterocatólicos, que não aceitaram o Concílio Vaticano I (1869-1871) e a doutrina da infalibilidade pontifícia, diziam-se católicos verdadeiros, imunes às “inovações” dos Padres Conciliares. Dom Lefebvre, ao sagrar quatro bispos sem mandato apostólico, dizia estar preservando a “Tradição”, que o Vaticano II teria abandonado.

Não nego a gravidade da crise atual. Parece-me ser uma crise sem precedentes. Antes, sempre que ouvíamos falar de tribulações na Igreja – relativismo moral, teologia da libertação, abusos litúrgicos... – não hesitávamos em apontar o Santo Padre como aquele que dava um ensinamento sólido e punha fim às discussões. Hoje, infelizmente, para usar as palavras do Cardeal Burke em 2014, a Igreja parece desorientada como “um navio sem leme” [7].

Porém, mais do que a confusão gerada no atual pontificado, temo que em nome da verdade se pregue o ódio, a desobediência e o cisma.

Obediência: a nossa maior arma

Obediente ate a morte2Satanás, que se rebelou contra Deus, não tem aversão às rebeliões, mas é incapaz de suportar a obediência. Quem obedece é que esmaga o Maligno, assim como Cristo o esmagou “fazendo-se obediente até a morte e morte de cruz!” (Fl 2,8). A obediência é prova de amor e produz alegria:

Se observardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu observei o que mandou meu Pai e permaneço no seu amor. Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa (Jo 15,10-11).

Dom Viganò, que em seu artigo citou a carta 16 de Santa Catarina de Sena, poderia ter citado uma passagem da carta 28, em que a santa exortava à obediência ao “doce Cristo na terra”:

Catarina SenaAinda que ele fosse um demônio encarnado, jamais devo levantar a cabeça contra ele. Sempre devo humilhar-me e implorar misericórdia. É a única maneira de receber ou participar dos frutos da redenção. Peço que nada façais contra o vosso chefe[8].

Devemos obedecer ao Papa, com a única exceção de que ele nos ordene cometer um pecado. Que eu saiba, o Papa nunca ordenou que nós, sacerdotes, déssemos a Sagrada Comunhão aos adúlteros. Se desse tal ordem, eu seria o primeiro a desobedecer em nome da obediência a Deus. Também, que eu saiba, ele não nos ordenou participar de cultos idolátricos nem pregar que “todas as religiões são iguais”. Uma ordem categórica de cometer um pecado não apenas não obriga à obediência; obriga à desobediência.

Naquilo que não é pecado, eu obedeço ao Papa. Recito, por exemplo, o nome de São José incluído por ele nas Orações Eucarísticas II, III e IV (além do Cânon Romano)[9], celebro a memória de Maria Mãe da Igreja (por ele instituída)[10], invoco São João Paulo II e São João XXIII (por ele canonizados) e, no “Ano da Misericórdia” (2015/2016), fiz as obras por ele indicadas a fim de lucrar indulgência plenária.

Se o Papa me suspendesse do uso de ordens, ainda que injustamente, eu lhe obedeceria, pois não seria pecado deixar de administrar os sacramentos e de celebrar a Santa Missa por obediência ao representante de Cristo. Seria dolorosíssimo, mas tenho certeza de que agradaria imensamente a Deus, como tanto lhe agradou a obediência até à morte de seu Filho feito homem.

Mons. Álvaro Negromonte, grande catequista e educador, ensina que nenhuma demonstração de força

"... é tão grande quanto vencer o homem a si mesmo. Muito mais fácil é vencer os outros. Vieira salientou que foi muito maior Davi não matando a Saul que matando a Golias, pois 'matando a Golias, venceu um gigante; poupando o rei, venceu a si'. Ser corajoso com os outros é comum; difícil e raro, ser corajoso consigo mesmo[11].

O Ungido do Senhor

Certa vez, Saul entrou em uma gruta no deserto de Engadi e, sem que ele o soubesse, lá estava Davi com seus homens.

Davi levantou-se e, furtivamente, cortou a orla do manto de Saul. Depois disso, o coração lhe batia fortemente por ter cortado a orla do manto de Saul. E disse aos seus homens: ‘Que o Senhor me tenha como abominável se eu fizer isso ao ungido do Senhor, levantando a mão contra ele, porque é o ungido do Senhor’ (1Sm 24,5-7).

Uma outra vez, Davi penetrou no acampamento de Saul, que o perseguia, e encontrou o rei dormindo com sua lança cravada no chão ao lado de sua cabeceira.

Abisaí disse então a Davi: ‘Deus entregou hoje o teu inimigo nas tuas mãos. Permite-me que eu o encrave no chão, de um só golpe, com a sua própria lança: não será necessário um segundo golpe’. Mas Davi respondeu a Abisaí: ‘Não o faças perecer. Quem levantaria a mão contra o ungido do Senhor e ficaria impune?’ Disse ainda Davi: ‘Pela vida do Senhor, o Senhor mesmo o ferirá, quando chegar a hora e ele morrer, ou quando, no campo de batalha, for ferido. Que o Senhor me tenha como abominável se eu levantar a mão contra o ungido do Senhor’ (1Sm 26,8-11).

Papa Francisco doce CristoSeria uma vergonha que nós, pertencentes à Nova Aliança, demonstrássemos ter pelo Papa Francisco uma reverência menor que a que Davi, no Antigo Testamento, demonstrava ter por Saul.

A quem diz que hoje é difícil amar e obedecer ao Papa, eu respondo com as palavras do Senhor, que indicam que devemos amar também quando é difícil:

Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os publicanos não fazem a mesma coisa? Sede, portanto, perfeitos, como o vosso Pai Celeste é perfeito (Mt 5,44.46.48).

Nesta hora crítica, não podemos dizer apenas que ficaremos “com o Evangelho”, “com a Tradição” ou “com a Fé”. Temos que ficar com Alguém: Cristo. E Cristo tem um representante na terra: Pedro. Não nos afastemos do “doce Cristo na terra”.

Anápolis, 13 de janeiro de 2020.

Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz

Presidente do Pró-Vida de Anápolis



[3] Disse Dom Viganò: “Agora cabe a nós. Sem equívocos, sem se deixar expulsar desta Igreja de que somos filhos legítimos e na qual temos o sacrossanto direito de sentirmos em casa, sem que a odiosa horda dos inimigos de Cristo nos faça sentir marginalizados, cismáticos e excomungados” [destaque meu].

[5] “Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste [subsistit in] na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele” (Lumen gentium, 8).

[6] “É, portanto, contrária ao significado autêntico do texto do Concílio a interpretação que leva a deduzir da fórmula subsistit in a tese, segundo a qual, a única Igreja de Cristo poderia também subsistir em Igrejas e Comunidades eclesiais não católicas” (Dominus Iesus, n. 16, nota 56).

[8] Santa CATARINA DE SENA, Cartas completas, São Paulo: Paulus, 2016, p. 104-105, Carta 28, a Bernabó Visconti.

[11] Álvaro NEGROMONTE. A Educação dos filhos, Rio de Janeiro: Rumo, 1961, n. 167.

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