Sou médica e mãe de sete filhos, sendo cinco biológicos e dois adotivos. No dia 06/03/2004, ao ler o jornal O GLOBO, havia me deparado com um artigo, de autoria de uma antropóloga, entitulado "O direito ao aborto", que tratava especificamente do caso de malformações fetais incompatíveis com a vida, como a anencefalia, e defendia a prática do aborto "terapêutico" em tais casos.
Coincidentemente, na quinta-feira, dia 11/03, veio uma paciente ao meu consultório de ultrasonografia, com o intuito único de relatar sua experiência a esse respeito. Há poucos meses, ela se encontrava grávida de um filho anencéfalo, veio então ao meu consultório para um exame e disse estar se sentindo oprimida, pois seu médico havia recomendado a interrupção da gravidez, o que ela não desejava fazer. Eu lhe expliquei, na época, que não havia nenhuma indicação clínica para tal procedimento, ou seja, que ela não corria nenhum risco e se, mesmo sabendo que seu filho não sobreviveria, de qualquer modo preferisse esperar para que as coisas acontecessem naturalmente, poderia fazê-lo sem problemas.
Depois de alguma reflexão, baseada em meus conhecimentos de médica e de mãe, gostaria de expor alguns pontos que penso não estarem bem esclarecidos:
Gostaria, antes de encerrar, dizer que o amor que temos pelos filhos não está na dependência de quanto tempo temos para viver com eles (9 meses ou 90 anos) ou de quão perfeitos eles são. Digo isto tranqüilamente, pois tenho um filho deficiente visual, que não nasceu da minha barriga, mas renasceu pelo meu coração.
Lucia Pedroso Barbosa