Gravidez
ectópica
(que
fazer quando o bebê se implanta fora do útero?)[1]
Gravidez
ectópica (ek + topos = fora do lugar) é aquela em que a implantação do bebê
se dá não no útero (lugar natural), mas fora dele, como no abdômen, no ovário
ou na trompa. O caso mais comum de gravidez ectópica é a gravidez
tubária, em que o embrião se implanta na tuba ou salpinge ou trompa
de Falópio.
A conversão tubário-uterina
A
solução mais óbvia para esse problema é transportar a criança da trompa
para o útero. Essa cirurgia, conhecida como operação
Wallace ou conversão tubário-uterina,
foi feita com sucesso em 1915 por C. J. Wallace[2]. Foram relatados mais
dois casos de sucesso: em 1980 por Landrum B. Shettles[3] e em 1994 por
J. M. Pearce e seus colaboradores[4]. Hoje, com a
ultra-sonografia transvaginal, é possível detectar uma gravidez ectópica
quando o embrião tem apenas 4 a 5 milímetros. Quanto mais cedo a detecção,
maior a chance de sucesso da cirurgia. Parece, porém, que tem havido um grande
desinteresse pela pesquisa nesse campo, apesar do esforço do médico italiano
Eugenio Lenzi em conclamar seus colegas. Bom seria se os veterinários
investissem nos modelos animais, provocando uma gravidez ectópica e tentando
convertê-la em gravidez uterina.
A expectação armada
Na
impossibilidade de fazer a conversão tubário-uterina, resta ao médico a expectação
armada, isto é, de esperar a evolução espontânea da gravidez ectópica,
com a gestante hospitalizada, próxima a uma sala de cirurgia e submetida a uma
monitoração contínua.
Em
mais de 65% dos casos, a gravidez termina em aborto espontâneo ou o embrião
morre e é reabsorvido pela trompa[5].
A
literatura fala de casos raríssimos em que o bebê se desenvolveu até a
maturidade, sem que a trompa se rompesse, sendo depois extraído vivo por
laparotomia[6].
Quando
a gravidez evolui até a ruptura da trompa, é preciso intervir imediatamente
para estancar a hemorragia. Somente uma hemorragia
em ato justifica a remoção da tuba[7].
Muitas vezes, em tal ocasião, o bebê já morreu. Se, porém, ele não ainda
estiver vivo, sua morte não será causada
diretamente pela cirurgia. Assim
explica T. L. Bouscaren:
[Do
estancamento do fluxo sanguíneo] seguem dois efeitos imediatos, que são
igualmente próximos entre si, a saber, a conservação da vida da mãe e a
extinção da vida do feto. Nenhum desses efeitos é mais imediato que o outro.
Exatamente a mesma compressão do fórceps, o mesmo golpe da tesoura que
conserva o suprimento de sangue para a mãe corta-o para o feto[8].
Em
tal situação, a remoção da trompa (salpingectomia) é justificada pelo princípio
da ação com duplo efeito. Ela é feita com o fim de salvar a vida da mãe
e seria feita mesmo se a hemorragia não fosse causada pela presença de um bebê
na trompa.
Pode-se
remover a trompa antes que ela se rompa?
O
mesmo autor T. L. Bouscaren que, como vimos, expõe de maneira brilhante a
aplicação do princípio da ação com duplo efeito quando a trompa está-se
rompendo, avança para defender, em sua tese doutoral na Universidade Gregoriana
(1928), a remoção da trompa (salpingectomia) antes da ruptura tubária.
Segundo
ele, mesmo antes que a trompa se rompa, ela se torna debilitada. A criança não
é a “doença” a ser removida. Seu crescimento, porém, torna a tuba doente.
É esse órgão doente que é removido pela salpingectomia, tendo como efeito indireto
a morte da criança que se encontra em seu interior[9].
Embora
essa tese tenha encontrado ampla aceitação entre os moralistas, ela não é
segura. Não conta com o apoio explícito do Magistério da Igreja e apresenta
duas dificuldades insuperáveis:
1)
Essa cirurgia não
seria feita se a mãe não estivesse grávida.
2)
Se o médico matasse a
criança, deixando a trompa intacta, salvaria a vida da mãe.
Isso
indica que o fim da cirurgia é a morte do bebê, que serve como meio
para salvar a vida da mãe. Atualmente há outros procedimentos — todos
eles imorais — em que o bebê é morto diretamente, deixando a trompa
intacta, por exemplo:
·
a aplicação de metotrexato,
uma substância que impede o desenvolvimento do embrião, causando sua morte por
inanição;
·
a retirada do embrião
por uma incisão na trompa (salpingostomia linear) causando sua morte por imaturidade.
Quando
se está diante do direito certo de inocente à vida, como é o caso da gravidez
ectópica, não se pode seguir uma opinião apenas provável,
mas não segura: “o caçador não
pode disparar quando duvida se o objeto percebido ao longe é homem ou animal
selvagem”[10]. Os únicos
procedimentos que seguramente não são
diretamente abortivos são a conversão tubário-uterina e a expectação
armada.
Não
é preciso demonstrar que a tese de Bouscaren é falsa. Basta admitir que ela é
insegura, conforme demonstramos, para que não se possa segui-la.
Anápolis,
12 de março de 2010.
Pe.
Luiz Carlos Lodi da Cruz
[1] Este artigo é um resumo do livro “O princípio da ação com duplo efeito e sua aplicação à gravidez ectópica”, dissertação de Mestrado em Bioética do Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz apresentada no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum, Roma, em 2009.
[2]
C. J. WALLACE. “Transplantation of ectopic pregnancy from fallopian tube
to cavity of uterus”, Surgery,
Gynecology and Obstetrics 24 (1917), 578-579.
[3]
L. B. SHETTLES. “Tubal embryo successfully transferred in utero”, American
Journal of Obstetrics and Gynecology 163 (1990), 2026.
[4]
Cf. PEARCE, J.M. – MANYONDA,
[5]
Cf. A. G. SPAGNOLO – M. L. DI PIETRO, “Quale decisione per l’embrione
in una gravidanza tubarica?”, Medicina
e Morale 2 (1995),, 298-299.
[6]
Cf. T. L.
BOUSCAREN, Ethics of ectopic operations, Loyola University Press, Chicago 1933,
140-141.
[7]
G. FASANELLA – N. SILVESTRI – E. SGRECCIA, “Gravidanza
extra-uterina” in S. LEONE – S. PRIVITERA (ed.), Nuovo
dizionario di Bioetica, Città Nuova, Roma - Istituto Siciliano di
Bioetica, Acireale 2004, 556.
[8]
T. L. BOUSCAREN, Ethics of ectopic operations…, 152.154.
[9]
Cf. T. L.
BOUSCAREN, Ethics of ectopic operations…, 162.
[10] T. T. DEL GRECO, Teologia Moral. Compêndio da Moral Católica para o clero em geral e leigos, Pia Sociedade de São Paulo, São Paulo 1959, 234-235.