Marcela: uma estrela no céu
(depois
de um ano e oito meses de muitos risos, morre a anencéfala Marcela, que tanto
contribuiu à causa pró-vida)
No
dia 1º de agosto de 2008, sexta-feira, às 22 horas, na Santa Casa de Misericórdia
de Franca (SP) morreu Marcela de Jesus Ferreira, quebrando todos os recordes de
sobrevivência de uma criança anencéfala. Os anencéfalos costumam ter uma
breve vida extra-uterina. Segundo o Comitê Nacional de Bioética do governo
italiano, “foi relatado um caso único
de sobrevivência até 14 meses (8) e dois casos de sobrevivência de 7 a 10
meses, sem recorrer à respiração mecânica”[1].
Marcela, porém, nascida

Célio
Messias/AE
Cacilda beija a mão da filha Marcela de Jesus
Após a alta hospitalar, Marcela foi com sua mãe Cacilda Galante Ferreira morar em uma casa na cidade. A necessidade de estar perto de um lugar com assistência médica impediu-as de irem para o sítio da família, onde vive o pai de Marcela, agricultor, Sr. Dionísio Justino Ferreira, com as duas filhas do casal: Débora (19 anos) e Dirlene (16 anos). Em 20 de novembro de 2007, Marcela comemorou seu primeiro aniversário. Em 26 de março de 2008, o Diácono Fábio Costa, que a havia batizado na Santa Casa, logo após o nascimento, completou os ritos do Batismo. Foram padrinhos o prefeito e a primeira dama de Patrocínio Paulista.
A
saúde de Marcela parecia muito boa até as 7 horas do dia 1º de agosto de
2008, quando ela vomitou após tomar o leite dado por sua mãe pela sonda nosogástrica.
Ao perceber que sua filha ficou arroxeada e com dificuldade de respirar, Sra.
Cacilda levou-a imediatamente à Santa Casa de Misericórdia de Patrocínio
Paulista, onde foi feita uma radiografia que constatou pneumonia aspirativa
total do lado direito. Dra. Regina Helena crê que a pneumonia tenha sido
causada por aquele vômito ou por um vômito do dia anterior. Às 12h30min,
Marcela sofreu uma parada cardiorrespiratória, mas recuperou-se através de
massagens e de um micro-ressuscitador. A médica pediu então uma vaga na Santa
Casa de Misericórdia de Franca, ao mesmo tempo em que perguntou para a mãe:
“Cacilda, você está preparada?”.
A resposta foi firme: “Eu sempre estive
preparada. Ela é minha enquanto Deus quiser. Ela foi um anjo que Deus me deu”.
Às 14h15min foi comunicada a existência de uma vaga
Interrogada sobre a morte de sua filha, Sra. Cacilda afirma: “Triste eu fiquei. Mas chorar, eu não chorei. Eu não estou perdendo ela. Deus está vindo buscar uma coisa que é dele, a jóia rara que eu cuidei. Estou sentindo a falta dela, mas a consciência está tranqüila. Fiz a escolha certa: a vida dela”.
Segundo a mãe, “Marcela uniu mais a família... A gente fez tantos amigos... Agora ela está lá na presença de Deus, cuidando de mim, me dando forças para suportar a falta dela”. A frase que sintetiza o pensamento de Sra. Cacilda é esta: “Só tenho que agradecer”.
Peculiaridades
do caso Marcela
O Brasil conhece outro caso de anencefalia em que a criança recebeu alta hospitalar: Maria Teresa, nascida em 17/12/2000, em Fortaleza (CE), recebeu alta depois de 19 dias e só veio a falecer em 29/03/2001, portanto com mais de três meses de nascida.[2]
Outro
caso particularmente chocante foi o de Manuela Teixeira, de Sobradinho (DF), que
teve seu aborto recomendado aos sete meses por uma promotoria de justiça do
Distrito Federal. O diagnóstico era de acrania (ausência de calota craniana).
Se a criança houvesse morrido ao ser expulsa, o aborto teria sido consumado. No
entanto, a criança não morreu ao sair da mãe, embora essa fosse a vontade dos
médicos. Manu (ou Manuela) nasceu com
Alguém poderia dizer que Manuela só viveu tanto tempo por causa da parte do cérebro que lhe restava. O mesmo não se pode dizer de Marcela, no qual ambos os hemisférios cerebrais estavam ausentes. Em novembro de 2007, o jornal O Estado de São Paulo anunciou que Marcela não era anencéfala, com base na palavra de um médico da Unicamp[5]. Porém, alguns dias depois, em uma consulta feita pela Folha de São Paulo a nove especialistas, oito afirmaram que Marcela era mesmo anencéfala.[6] Percebe-se na discussão o desespero dos abortistas em justificar um prognóstico que falhou: o de que a menina morreria logo após o nascimento.
Não
apenas Marcela viveu ainda 20 meses depois de nascida, como nem
sequer houve relação direta entre a anencefalia e a sua morte! Ouçamos a
palavra da pediatra Márcia Beani: “Achávamos
que ela teria algum tipo de problema no futuro, pois com o desenvolvimento do
corpo, ela poderia sofrer de falência múltipla dos órgãos, em razão da ausência
cerebral. No entanto, a morte pela aspiração do leite poderia ocorrer com
uma criança sadia, por exemplo, e nada tem a ver com o problema que a Marcela
apresentava”[7].
Em outras palavras: se não fosse o acidente ocorrido, Marcela poderia, em tese,
estar ainda hoje viva e sorrindo!
Vidas
salvas por Marcela
É
impossível dizer quantos abortos deixaram de ser praticados por causa de
Marcela. A título de ilustração, cite-se o parecer do Procurador de Justiça
do Rio Grande do Sul Dr. Sérgio Guimarães Brito, de 1º de novembro de 2007,
contra o aborto de uma criança anencéfala[8]
e a sentença do juiz de direito da comarca de Natal (RN) Dr. Odinei W. Draeger,
publicada em 30 de junho de 2008, indeferindo o pedido de abortamento de um bebê
anencéfalo[9].
Em ambas as peças os juristas citam o caso de Marcela para ilustrar sua posição
pró-vida.
Quanto
ainda não se sabe sobre o cérebro
A passagem de Marcela entre nós — rindo, chorando, reagindo às luzes dos fotógrafos, percebendo claramente a aproximação da mãe — obriga os neurologistas a rever o dogma de que é impossível haver consciência sem a presença do córtex cerebral.
Aliás,
já em 1980, o redator da revista Science Roger Lewin publicava um artigo questionando: “seu cérebro
é realmente necessário?” (Is your brain really necessary?). Na ocasião, ele citava um interessante texto
do neurologista britânico John Lorber:
“Um dos alunos que estuda nesta universidade [Sheffield University] tem um QI de 126, ganhou prêmios como melhor aluno de matemática e tem uma vida social normal. Mas não tem cérebro, literalmente falando... Quando foi submetido a um exame, verificamos que em vez de um cérebro normal de espessura de 4,5 centímetros entre os ventrículos e a superfície cortical, havia apenas uma fina camada de tecido de pouco mais de um milímetro de espessura. Seu crânio é preenchido apenas com fluido cerebrospinal.” [10]
A
ADPF 54
Durante
o tempo
Rio de Janeiro, 19 de agosto de 2008.
Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz
Presidente do Pró-Vida de Anápolis
[1]
COMITATO NAZIONALE PER
[2]
Maria Teresa foi a quarta filha de Ana Cecília Araújo Nunes, Mestra
[3] Cf. Lilian TAHAN, Ela desafiou a ciência, Correio Braziliense, 14 fev. 2003, p. 29.
[4] Cf. MORRE criança com acrania. Correio Braziliense, 15 set. 2003, p. 3.
[5]
IWASSO, Simone; LEITE, Fabiane. Médica conclui que bebê nascido há um ano no interior não é anencéfalo.
O Estado de S. Paulo. 15 nov.
2007. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20071115/not_imp80836,0.php>
[6] COISSI, Juliana. Para médicos, Marcela,1, é mesmo anencéfala. Folha de S. Paulo. Cotidiano. 22 nov. 2007. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2211200718.htm>
[7] SARAIVA, Fabio. Bebê sem cérebro morre ao se engasgar com leite com 1 ano e 8 meses. O Globo on line. 3 ago. 2008. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/sp/mat/2008/08/03/bebe_sem_cerebro_morre_ao_se_engasgar_com_leite_com_1_ano_8_meses-547547799.asp>. Grifo nosso.
[8] Cf. <http://www.providaanapolis.org.br/paremprs.htm>
[9]
Cf. <http://www.tjrn.jus.br:8080/sitetj>. Consultar processo 001.08.018675-1.
[10] LEWIN, Roger. Is your brain really necessary? Science, 12 Dec. 1980: 1232-1234
[11]
GALLUCCI, Mariângela. STF debate
sobre fetos anencéfalos. Recife, Jornal
do Commercio, 10 ago. 2008. Disponível em: <http://jc.uol.com.br/jornal/2008/08/10/not_294060.php>